Resultados adversos na gravidez e pós parto e a associação com transtornos alimentares

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As adaptações fisiológicas e hormonais do corpo na gravidez promovem uma série de mudanças na vida das gestantes, como por exemplo: alterações no peso, mudança nos hábitos alimentares, no humor, etc. Se pensarmos na hipótese dessas mudanças serem somadas as adversidades enfrentadas por quem sofre de um transtorno alimentar, poderíamos encontrar prejuízos significativos nos períodos perinatal e pós natal, bem como na saúde dos bebês nascidos? Nesse sentido, o artigo Eating disorders are associated with adverse obstetric and perinatal outcomes: a systematic review buscou através de uma revisão sistemática apresentar resultados que respondessem a hipótese de que mulheres com transtornos alimentares ao longo da vida enfrentam resultados perinatais mais adversos do que mulheres sem transtornos alimentares, pretendendo responder às seguintes questões: 1) A história atual ou pregressa de transtorno alimentar influencia o prognóstico perinatal? 2) O curso da gravidez difere de acordo com o tipo de transtorno alimentar? 3) Qual demografia, características psicológicas e comorbidades influenciam os resultados perinatais em mulheres com histórico ou sintomas atuais de transtorno alimentar?

Sendo assim, o estudo se propôs a revisar diversos artigos desde janeiro de 1980 a dezembro de 2020, usando um desenho sistemático, que inclui a avaliação da qualidade dos estudos, e buscou revisar todos os subtipos de transtorno alimentar. Apesar disso, as maiores associações apresentadas nos estudos foram em relação a anorexia nervosa, a bulimia nervosa e o transtorno de compulsão alimentar.

A partir dos 30 artigos analisados, o estudo coloca que os transtornos alimentares exercem uma influência significativa na gravidez, especialmente em mulheres que lidam com a doença durante a gestação (em comparação com as que estão em remissão de sintomas). Os principais desfechos associados aos transtornos alimentares durante e após gestação foram diferentes nos subtipos de transtorno alimentar. Dessa maneira, em mulheres com anorexia nervosa o risco de parto prematuro, natimorto, restrição de crescimento simétrico e baixo peso ao nascer foram mais acentuados. A bulimia nervosa está também associada há maiores riscos do baixo peso ao nascer e crescimento fetal lento. Da mesma forma, mulheres grávidas com bulimia nervosa demonstraram ter maiores chances de desenvolver depressão pós-parto, aborto espontâneo ou parto prematuro, quando os sintomas estavam presentes na gravidez. Já o transtorno de compulsão alimentar, esteve positivamente associado nos estudos a maiores chances de bebês grandes para idade gestacional e problemas de hipertensão na mãe.

Em relação as comorbidades psiquiátricas maternas associadas, a depressão foi o que mais apareceu (perinatal e pós-natal) , registrada em 50-75% das gestantes com transtorno alimentar. Levando em consideração os riscos da complexidade da depressão associada aos transtornos alimentares, é possível considerar um aumento do risco de suicídio e maiores dificuldades na recuperação. Mulheres com transtorno alimentar também apresentaram maior prevalência de tabagismo durante a gestação, e alguns estudos avaliaram a influência do tabagismo durante a gravidez e o peso dos bebês. No entanto, o tabagismo na gravidez explicou apenas parcialmente a associação com desfechos fetais adversos.

Desse modo, o estudo cumpriu o objetivo de responder as hipóteses formuladas, bem como trouxe uma discussão necessária a cerca dos fatores que podem explicar esses prejuízos. Para os autores, dois fatores explicam a gravidade dos problemas associados aos transtornos alimentares na gestação: desnutrição e estresse. O cuidado materno com a alimentação é crucial para uma gravidez saudável, entretanto, para mulheres com essa perturbação frequente na alimentação torna-se extremamente complexo essa atenção, que leva a maiores níveis de partos prematuros, abortos, anemia, baixo peso ao nascer, entre outras associações. O uso de laxantes e outros comportamentos compensatórios também prejudica a nutrição materna e consequentemente os resultados no nascimento. Além disso, os pacientes com transtornos alimentares, assim como possuem uma grande dificuldade em reconhecer a gravidade da doença e aderir ao tratamento, comumente omitem os sintomas das consultas de rotina na gestação, e questões profundas sobre o comportamento alimentar também são raramente investigadas pelos médicos.. Um outro ponto, seria o estresse associado as mudanças fisiológicas e hormonais. Essas, já sendo intensas em mulheres sem transtornos alimentares, são um agravante para quem já enfrenta uma comorbidade psiquiátrica. Assim como, doenças psiquiátricas, como os transtornos alimentares, já possuem uma possibilidade de correlação com outros quadros, os eventos psicológicos associados a gravidez aumentam essa vulnerabilidade, fazendo com que mulheres grávidas com transtornos alimentares tenham um aumento no desenvolvimento de depressão e ansiedade.

Todavia, apesar do levantamento de um problema que precisa de investimento, bem como do ponto positivo da análise com diferentes tipos de transtornos alimentares, o estudo apresenta suas limitações. A grande maioria dos artigos analisados foi qualificada como de qualidade ruim ou regular o que contribuiu para compreensão dos resultados, visto que usaram critérios não padronizados ou medidas de autorrelato para classificar os transtornos alimentares ou comorbidades psiquiátricas, amostras muito pequenas e pouco passíveis de generalização. Os autores ainda colocam que nenhum estudo avaliou a associação com o transtorno alimentar não especificado, ou outros tipos de transtorno alimentar como ortorexia, hiperfagia, transtorno alimentar restritivo evitativo, etc.

Logo, é preciso que futuras pesquisas no tema ampliam essas possibilidades e assim possam trazer ainda mais abertura para avaliação dos impactos dos transtornos alimentares. Assim como, a visão de profissionais de outras especialiadades para os transtornos alimentares torna-se crucial, visto que os sintomas controlados de transtornos alimentares na gravidez apresentaram um melhor prognóstico, demonstrando a importância da prevenção.

Autora do Texto: Laura dos Santos Oliveira – CRP: 06/166756/ @lauraspsicologa

Revisão Técnica: Fellipe Augusto de Lima Souza – CRP: 06/138263

Referência bibliográfica: NEVES M.C, TEIXEIRA A.A, GARCIA F.M, RENNÓ J, DA SILVA A.G, CANTILINO A., et al. Eating disorders are associated with adverse obstetric and perinatal outcomes: a systematic review. Brazilian Journal of Psychiatry. 2021;00:000-000. http://dx. doi.org/10.1590/1516-4446-2020-1449.



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Resultados adversos na gravidez e pós parto e a associação com transtornos alimentares

Artigo baseado no texto Eating disorders are associated with adverse obstetric and perinatal outcomes: a systematic review publicado em 2021 no Brazilian Journal of Psychiatry

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O corpo questiona e a mente julga: Desejos por comida em Transtornos Alimentares

Esse texto foi baseado no artigo The body asks and the mind judges: Food cravings in eating disorders publicado em Janeiro de 2020 na L’Encéphale - journal of general Psychiatry.

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Transtornos Alimentares em pacientes pós cirurgia bariátrica: A cirurgia bariátrica está envolvida no desenvolvimento de transtornos após o procedimento?

Este texto foi baseado no artigo The Development of Feeding and Eating Disorders after Bariatric Surgery: A Systematic Review and Meta-Analysis publicado em 2021 na Revista Nutrients.