Programa de prevenção de transtornos alimentares e dismorfia muscular em homens universitários apresenta resultados promissores: Projeto corpo em questão: mais que músculos

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A ligação da insatisfação corporal com os transtornos alimentares e a dismorfia muscular merece atenção, na medida em que investigar os aspectos envolvidos na construção da imagem pode ajudar a desenvolver fatores de proteção. Apesar de estudos indicarem uma alta prevalência de pacientes do sexo masculino com transtornos alimentares (homens representam até 33% de todos os casos de TA), bem como indicarem que essa população é fortemente afetada pela dismorfia muscular (DM), são muito escassas as intervenções direcionadas para prevenção desses problemas em homens. O estigma em torno da masculinidade associado ao tabu existente sobre os transtornos alimentares podem ser apontados como pontos principais para a forte internalização de um corpo idealizado, e desenvolvimento de um sofrimento psíquico em torno da busca por uma imagem satisfatória, o que pode resultar em fatores de risco para desenvolvimento de problemas como a dismorfia muscular (DM) e os transtornos alimentares (TA). Da mesma maneira, esses são agravantes consideráveis na avaliação de uma menor prevalência de busca dos homens por ajuda especializada.

Os dados apontam que os fatores de risco para os homens desenvolverem dismorfia muscular incluem problemas em manter uma alimentação equilibrada, insatisfação com sua própria muscularidade e a pressão sociocultural para ter um corpo magro e musculoso. Em comparação com dados de países ocidentais, homens brasileiros apresentaram taxas semelhantes de insatisfação corporal e transtornos alimentares.

Levando em conta a importância e inexistência de intervenções direcionadas a esse público ainda com fatores significativos de risco, um programa de prevenção aplicado em outros países foi representado no Brasil, em uma universidade pública do sudeste, e apresentou resultados positivos.

O projeto “Body Project: More than Muscless” traduzido em português para “Projeto corpo em questão: mais do que músculos” realizou um treinamento online para facilitadores, propondo uma intervenção baseada em dissonância cognitiva em um grupo de homens com insatisfação corporal, recrutados nos cursos da universidade. O intuito do programa foi analisar a aceitabilidade e eficácia da proposta baseada em intervenção por dissonância, na redução de fatores de risco e aumento de fatores protetivos diante de sinais e sintomas de transtornos alimentares e DM.

O estudo aconteceu através de um ensaio clíncio controlado randomizado, com 180 homens entre 18 e 30 anos, levando em consideração: internalização do corpo ideal, instatisfação corporal, busca pela muscularidade, comer transtornado, apreciação corporal e sinais e sintomas de DM. Dessa forma, foram separados grupo intervenção e grupo controle. O grupo internvenção participou de atividades conduzidas em duas sessões de frequência semanal de 120 minutos cada, visando promover a capacidade de aumentar vieses de coerência entre atitudes e comportamentos desses indivíduo, com aplicação de escalas de autorrelato pré e pós-intervenção (4 a 24 semanas).

O programa apresentou através dessa intervenção reduções significativas na alimentação desordenada, nos sintomas de DM, reduções nos distúrbios alimentares, na insatisfação com a gordura corporal, assim como em relação ao impulso para a muscularidade e internalização ideal do corpo, em comparação com homens analisados de um grupo controle. As conclusões também demonstraram aumentos significativos na apreciação corporal no pós-intervenção, o que é considerado um fator protetivo, considerando então que houve uma alta aceitação do programa, e comprovando um considerável nível de eficácia e aplicabilidade para as intervenções em dissonância para a prevenção de desenvolvimento de problemas mais graves com o corpo, a imagem e construção da relação com a comida.

Os autores ressaltam para os pontos positivos dessa aplicação a importância de uma intervenção prolongada do programa, que valorizou as atividades vivenciais anteriormente não levadas em consideração. Além disso, destaca-se a importância de uma intervenção realizada em grupos. O fato de poder ter modelos de identificação com similares, e compartilhar suas preocupações com a imagem corporal e alimentação com esses outros homens, proporcionou uma riquíssima oportunidades de validação diante de cultura tão crítica em relação a masculinidade. Outros pontos ressaltados pelos pesquisadores foram: a realização de um treinamento online, que se apresenta com um melhor custo-benefício-e que em outras propostas pode atingir uma área mais ampla de clínicos, afetando diretamente uma maior cobertura de pacientes-, o fato dos facilitadores terem características semelhantes as dos participantes, bem como da realização do projeto ter sido dentro de uma extensão universitária, o que pode ter atenuado as barreiras à participação e incentivado o envolvimento com o programa.

No entato, o estudo coloca que apesar dos resultados positivos, é necessário que sejam realizadas outras adaptações afim de avaliar ainda mais benefícios. As medidas disponíveis para avaliação de transtornos alimentares e dismorfia corporal atuais foram desenvolvidas com base nas atitudes e comportamentos femininos. Logo, pesquisas futuras devem se preocupar em avaliar os efeitos de intervenções na área com uma variedade de medidas mais ampla. Além disso, a realização de uma programa que faça um acompanhamento a longo prazo dos efeitos da intervenção também poderia apresentar mais avanços na investigação da qualidade de vida de pacientes que passaram por uma prevenção a um desenvolvimento de TA e DM.

Em suma, podemos considerar como as estratégias que exploram fatores de proteção diante dos riscos de doenças psiquiátricas mostram um futuro promissor para o desenvolvimento não só de procedimentos, como também de políticas públicas adequadas, que assim possam levar a uma melhor qualidade de vida da sociedade como um todo. O investimento das universidades públicas, instituições governamentais e profissionais clínicos nessas investigações se faz de extrema necessidade.


Autora do Texto: Laura dos Santos Oliveira – CRP: 06/166756

Revisão Técnica: Fellipe Augusto de Lima Souza – CRP: 06/138263

Referência bibliográfica: Almeida M, Brown TA, Campos PF, Amaral ACS, de Carvalho PHB. Dissonance-based eating disorder prevention delivered in-person after an online training: A randomized controlled trial for Brazilian men with body dissatisfaction. Int J Eat Disord. 2020;1–12. https://doi. org/10.1002/eat.23423.



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