Qual a Utilidade Clínica da Dependência Alimentar?

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QUAL A UTILIDADE CLÍNICA DA DEPENDÊNCIA ALIMENTAR?

Este texto foi baseado no artigo The Clinical Utility of Food Addiction: Characteristics and Psychosocial Impairments in a Treatment-Seeking Sample, publicado em 2020 na Revista Nutrients


    A hipótese da dependência alimentar (DA) postula que os alimentos altamente processados ​​e ricos em sal, açúcar e gordura têm “potencial aditivo”. Em outras palavras, certos alimentos podem ter a capacidade de provocar sintomas de transtornos por uso de substâncias. A pesquisa empírica sobre o conceito de dependência alimentar está crescendo rapidamente. Estudos demonstraram semelhanças entre alimentos e drogas, particularmente no que diz respeito aos seus efeitos nas vias de recompensa no cérebro.

    A DA, avaliada por meio da Escala de Dependência Alimentar de Yale, que aplica critérios de transtorno de uso de substâncias a alimentos e alimentação, foi considerada relativamente comum, variando de 3% a 20% em amostras não clínicas. As taxas de DA são mais altas em amostras de transtornos alimentares, com alguns estudos encontrando taxas de até 95% entre mulheres com bulimia nervosa, também é relativamente comum no Brasil. 

    O conceito de DA é amplamente debatido, com alguns argumentando que ele "patologiza" os comportamentos alimentares diários ou não possui utilidade clínica adicional além dos diagnósticos de transtorno alimentar existentes. De acordo com a 5ª Edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, “o diagnóstico de um transtorno mental deve ter utilidade clínica: deve ajudar os médicos a determinar o prognóstico, planos de tratamento e resultados potenciais para seus pacientes”. No entanto, a utilidade clínica da DA constitui uma lacuna importante no campo. Uma revisão sistemática examinando os correlatos da DA relatou uma relação com o índice de massa corporal, compulsão alimentar e resultados mistos com outras psicopatologias, incluindo a depressão. Desde a revisão, os estudos também revelaram uma associação entre DA e características demográficas, qualidade de vida inferior, sofrimento psicológico, comportamentos alimentares problemáticos e impulsividade.


MATERIAIS E MÉTODOS

    Os participantes foram 46 pacientes em busca de tratamento para dependência alimentar em um ambulatório universitário especializado vinculado à Faculdade de Medicina de São Paulo da Universidade de São Paulo (USP). Os pacientes foram encaminhados pela comunidade ou por outros programas de tratamento afiliados à Universidade. Na ingestão, os pacientes foram avaliados por um psiquiatra registrado para determinar sua adequação para o tratamento. Os critérios de elegibilidade para o tratamento foram os seguintes: (1) atender aos critérios para AF moderada a grave, conforme avaliado pela Escala de Dependência Alimentar de Yale 2.0 e (2) ter 18 anos de idade ou mais; os participantes relataram também sua idade, sexo, etnia, estado civil e emprego. O tratamento consistia em 15 sessões semanais de terapia do esquema em grupo e seis sessões de nutrição comportamental ministradas por dois psicólogos e dois nutricionistas.


RESULTADOS

    A amostra foi composta por mais mulheres (n = 37; 80,4%) do que homens (n ​​= 9; 19,6%). A média de idade foi de 43,28. Em relação à etnia, a maioria da amostra se identificou como branca (n = 36; 78,3%), cinco como pardos (10,9%), três como negros (6,5%) e um como asiático (2,2%). Um participante não revelou sua etnia. Aproximadamente metade (n = 24; 52,2%) dos participantes relatou estar em um relacionamento, e a maioria (n = 43; 93,48%) relatou estar empregada. A pontuação média no YFAS 2.0 foi de 9,12 (DP = 1,81), o que corresponde a sintomas graves de dependência alimentar. A condição psiquiátrica atual mais comum foi transtorno de ansiedade generalizada (n = 26; 61,9%), seguido por episódio depressivo maior (n = 20; 47,6%), suicídio (n = 11; 26,8%), agorafobia (n = 9; 21,4%) e ansiedade social (n = 8; 19,0%). Em relação aos transtornos alimentares, sete participantes preencheram os critérios para bulimia nervosa e nenhum preencheu os critérios para anorexia nervosa. Relativamente poucos, se houver, participantes preencheram os critérios diagnósticos atuais para transtorno de estresse pós-traumático (n = 1; 2,4%) ou uso/dependência de álcool ou substância (n = 1; 2,4%).


DISCUSSÃO E CONCLUSÃO

    Este estudo é, até então, o primeiro a examinar as características clínicas e os comprometimentos psicossociais de indivíduos para os quais a dependência alimentar é a principal preocupação e motivo de busca por tratamento. Em relação às características demográficas, a amostra foi composta principalmente por mulheres. Uma possível explicação para essa diferença de gênero é que o ganho de peso associado ou esperado como consequência do vício em comida pode ser mais angustiante para as mulheres, uma vez que estão sob maior pressão sociocultural para se conformar a um ideal de corpo magro. Como resultado, é mais provável que as mulheres fiquem angustiadas e procurem tratamento para a DA. No entanto, ainda nesse estudo, cerca de um em cada cinco participantes que procuraram tratamento eram homens, fornecendo mais evidências para o significado clínico da DA entre indivíduos de ambos os sexos. Estudos futuros investigando diferenças de gênero nas características clínicas daqueles que procuram tratamento para DA seriam altamente informativos. De fato, para aumentar a generalização das caracterizações de DA em todo o espectro de gênero, é importante evitar a sub-representação de homens e indivíduos que se identificam como transgêneros ou de gênero não binário em estudos de dependência alimentar.

    As comorbidades mais frequentes foram ansiedade e transtornos de humor. Curiosamente, no entanto, a dependência alimentar não foi significativamente correlacionada com a gravidade da depressão, em contraste com os achados anteriores, mas em linha com outros. Dados os achados mistos na literatura sobre a associação entre AF e depressão, mais pesquisas são necessárias. Por outro lado, a DA foi significativamente associada à gravidade da ansiedade. Além disso, os transtornos de ansiedade foram os transtornos mais frequentes em pacientes que buscam tratamento para AF. 

Por fim, na última década, houve um aumento do interesse empírico em relação a dependência alimentar. Embora nosso conhecimento sobre a DA tenha crescido exponencialmente, menos se sabe a respeito da utilidade clínica da DA, que impede o progresso no desenvolvimento de tratamentos eficazes para essa preocupação relativamente comum. O estudo atual sugere que as pessoas que procuram tratamento para DA têm probabilidade de apresentar problemas psiquiátricos concomitantes e apresentar prejuízos no funcionamento social, além de outras psicopatologias. Tomados em conjunto, os resultados sugerem que a dependência alimentar possui alguma utilidade clínica. Os resultados da presente pesquisa, bem como pesquisas futuras investigando a utilidade clínica da DA, podem ajudar a fornecer conhecimento sobre as possibilidades potenciais de tratamento para pessoas com dependência alimentar. 

Revisão técnica: Fellipe Augusto de Lima Souza – CRP: 06/138263

Referência: Oliveira, E., Kim, H. S., Lacroix, E., de Fátima Vasques, M., Durante, C. R., Pereira, D., ... & Tavares, H. (2020). The Clinical Utility of Food Addiction: Characteristics and Psychosocial Impairments in a Treatment-Seeking Sample. Nutrients, 12(11), 3388.

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